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Degradação da Amazônia é reprise do
que fizeram em MS nos anos 60
Alcides Faria, diretor executivo da ong Ecoa, fala sobre a expansão sucroalcooleira no Estado e porquê persiste na tese de que no Pantanal não se deve plantar cana-de-açúcar. Na entrevista defende uma política de reforma agrária voltada para a sustentabilidade, critica assentamentos em solo de baixa fertilidade e diz que a Amazônia repete o que já aconteceu em Mato Grosso do Sul a respeito do desmatamento. “O gado está sendo usado para avançar sobre as florestas, trazendo consigo a soja”, diz Alcides Farias, ressaltando, por outro lado, que o mundo começa a compreender que a economia não funciona sem os cuidados ambientais.
Campo Grande, 6 fevereiro 2008 / MidiaMax
A Ecoa está desenvolvendo estudos sobre a expansão sucroalcooleira em Mato Grosso do Sul?
Sim. Neste momento estamos na fase de avaliação. O que já constatamos é que esta expansão está se concentrando na região de produção de grãos e as avaliações são exatamente para identificarmos os motivos. O que não dá para ter certeza ainda é a dimensão desta expansão.
Mas esta expansão não se mostra tão intensa como se previa no ano passado?
Até meados do ano passado as informações davam conta de que a expansão sucroalcooleira se daria de forma arrasadora. Só que já percebemos que não é assim que está ocorrendo, até porque o mercado internacional ainda não se abriu para o biocombustível e também houve uma queda no preço do álcool. Por causa disso não dá para se saber ainda qual vai ser o ritmo dessa expansão.
É melhor ter cana-de-açúcar do que brachiaria?
Claro que sim. Temos que fazer uma avaliação global sobre o impacto na produção agrícola de outras culturas. E quando falo de impacto não é apenas o negativo, mas também o impacto positivo. A pecuária é de baixíssimo rendimento no Brasil. O boi rende por ano na média 40 quilos de carne, o que é pouco.
Então esse é um impacto positivo quando a cana substituir a pastagem. E quanto aos impactos negativos?
Toda monocultura por conta de risco ambiental é negativa tanto do ponto de vista social como político. Do ponto de vista ambiental nós temos a questão do vinhoto, o uso de agrotóxicos, inclusive através de aviões. Além disso, já sabemos que algumas empresas não têm estudado os cuidados ambientais adequados, como ainda outras estão buscando estes estudos. Algumas vão até além de seus domínios quando adotam o sistema de arrendamento, onde exigem que os arrendatários preservem a vegetação ciliar, conservem as áreas de preservação permanente. Algumas avançam até para a questão da reserva legal. Então tem várias situações aí que são por um lado preocupantes e por outro também têm aspectos positivos.
Dentro desse processo todo, o que é prioritário para o Ecoa?
Uma questão que para nós é fundamental é não plantar cana-de-açúcar no Pantanal. Isso é algo que não abrimos mão. Outra questão é o uso do fogo e que, associado a iss,o também há o sistema de trabalho brutal que é o corte de cana, trazendo jovens do Nordeste, do Sudeste, do Centro-Oeste para um trabalho extremamente desgastante. Nós temos um dado interessante: na década de 70 o trabalhador cortava 5 toneladas de cana por dia. Hoje chega a 12 ou 14 toneladas.
Há preocupações políticas nesta questão?
Claro que sim. A preocupação é com o fato de haver muito poder concentrado num único núcleo. Um grupo empresarial chega num município prevendo investimentos na ordem de R$ 300 milhões e o prefeito acaba se tornando funcionário do grupo, que entra para competir com dezenas ou centenas de proprietários médios da soja, do feijão e do manejo do gado, que frente a um empreendimento desses tornam-se pequenos.
Em meio a esta avaliação do Ecoa também está a questão da reforma agrária no Estado?
Não há como não associar as questões. Outro dia ouvi uma declaração do senador Valter Pereira (PMDB-MS) de que a reforma agrária aqui está criando favelas rurais. Temos percorrido muito o Estado e mantemos o olhar ambiental sobre o que ocorre. E tem me impressionado algumas regiões onde existem assentamentos em solo de baixíssima fertilidade, solos muito arenosos sem quantidade suficiente de argila para reter água. Inclusive são áreas de aquisição mais fáceis, até porque os proprietários não opõem muita resistência quanto à desapropriação. Em determinado momento eu confesso que comecei a achar que alguns proprietários pediam pelo amor de Deus para que invadissem sua terra.
Uma das reclamações do senador Valter Pereira é de que o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) não dá suporte aos assentados. Você concorda com isso?
O que eu observo é que a maioria dos assentamentos é distante dos centros urbanos. A pequena propriedade não pode funcionar adequadamente estando a 100 quilômetros de distância de um centro urbano. Então, como vai colocar energia elétrica? Como vai se criar a infra-estrutura necessária para que os assentados desenvolvam o trabalho?
Em geral esses assentamentos contribuem para a degradação ambiental?
Não podemos generalizar. Mas conheci assentamentos entre Nova Alvorada e Nova Andradina edificados em regiões de cerrado frágil, numa demonstração clara de que algumas medidas podem gerar problemas sociais e também ambientais.
O fato de não se poder generalizar significa que há situações positivas?
Claro que há. Também conheço assentamentos, como o Santa Lúcia, em Nioaque, que tem uma situação excepcional na condição de qualidade de vida, a fertilidade do solo é de boa qualidade, desenvolvem projetos promissores e existem associações ali que desempenham ações fundamentais para a sustentabilidade.
O parcelamento da terra é necessário, mas de que maneira deve ser feito?
Um país que tem a extensão territorial com a disponibilidade de solo como o Brasil, deve olhar para a terra e saber o que ela pode produzir. Só que até ela produzir há uma distância muito grande. Essa produção deve ser feita sem desmatar, sem tirar uma árvore e nem uma espécie do cerrado ou da Amazônia, inserindo muito mais gente trabalhando no campo.
Não temos isso porque há uma distribuição equivocada e também uma ineficiência na utilização da terra?
O último censo do IBGE provou isso. Em Mato Grosso do Sul, por exemplo, a nossa média de cabeças de gado por hectare está na faixa de uma cabeça. São 10 mil metros quadrados para você colocar um boi. Então, a forma de usar o solo com mais eficiência é fundamental. Além disso, do ponto de vista social a gente tem uma massa de brasileiros que não há como se adaptar aos novos tempos da economia urbana, da informática, do mundo globalizado. Então, o caminho mais adequado para essas pessoas recomporem sua vida é mesmo o campo. Neste sentido eu acho a reforma agrária necessária.
Atualmente a reforma agrária tem sido utilizada como instrumento de manobra?
Eu tenho esse temor. De repente se transformar uma necessidade de uma parcela do povo em instrumento de uma luta ideológica que não está no sistema, porque aí começam a trazer para os assentados uma agenda que eles não conseguem compreender, não conseguem entender. Isso é perigoso.
Que avaliação o Ecoa está fazendo em relação ao desmatamento da Amazônia?
Eu tenho sobrevoado a Amazônia e recentemente constatei que é muito evidente que estão avançando sobre as florestas. O que ocorre atualmente na Amazônia, ocorreu em Mato Grosso do Sul na década de 60. Quando cheguei ao Estado, cheguei em Nova Andradina e na época havia florestas na região. Os fazendeiros retiravam madeiras como peroba e as mais nobres, o resto era derrubado e queimado e aí vinha o gado. Então toda aquela região do Estado, primeiro foi queimada para entrar o gado. A Amazônia está repetindo este modelo e com o agravante de que agora há o suporte da soja.
Só que em Mato Grosso do Sul, naquela época não tinha o suporte da soja, que veio bem depois já na região de São Gabriel do Oeste, inicialmente.
É verdade. Aqui no Estado a soja veio numa outra situação bem mais avançada. Aqui, os primeiros capitalistas pegavam a madeira para fazer capital para adquirir o gado até chegar a esta economia nossa de milhões de cabeças de gado, mesclando com a produção de grãos num outro estágio. Na Amazônia, a soja pode até não avançar sobre a floresta neste momento, mas o gado avança e ela chega depois.
Que fator determina esse crescimento do desmatamento da Amazônia?
A cotação dos produtos agrícolas no mercado internacional. Subiu o milho, subiu a soja, então se aumenta o desmatamento para o plantio e com o gado indo junto. Tanto assim que o número de cabeças de gado na Amazônia está crescendo de maneira significativa e impressionante. Isso porque a soja, por exemplo, está sendo utilizada para valorizar a área. Assim, o fazendeiro desmata, valoriza a área, comercializa e adquire outra área maior lá frente e coloca gado.
A sociedade hoje fala mais em preservação ambiental. Há uma conscientização maior sobre o assunto?
Nós estamos passando por um momento de transformação. O mundo começa a despertar para o fato de que a economia só vai funcionar se os equilíbrios ambientais forem respeitados e não só pelas condições climáticas globais, mas sobretudo pelas condições climáticas locais. Em Belo Horizonte, por exemplo, a temporada de chuvas só chegou no início da última semana. Isso é um exemplo de mudanças mais locais e que interfere diretamente na economia. Esse é o grande passo que está sendo dado, a conscientização de que a economia não funciona sem os cuidados ambientais, até porque precisamos de água em quantidade e qualidade.
Fonte: MidiaMax
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